sexta-feira, 4 de março de 2011


...Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões...” –Manoel de Barros


JUSTIÇA NO FORMIGUEIRO


Uma formiga bem bunduda e preta,
sentadinha num caroço de pipoca
seguia carregada, a rainha ninfeta
da infância feliz que por hora evoca.

Um menino indgnado com a tirania,
se achando um rei no seu quintal,
soprou, como uma forte ventania,
achando a cena um exemplo do mal.

Caos instalado á porta do formigueiro.
Ouvia-se a fúria titânica dos soldados,
Visível a expressão de todos indignados
e o menino se achava um justiceiro.

Todas elas sobreviveram ao furacão,
com brio ferido, a rainha destronada,
talvez tenha aprendido uma boa lição
de um menino que não sabia de nada.

Sérgio Brandão, 03.03.11

“...O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas...”
-Manoel de Barros

PASSARINHOS NO RELÓGIO

Hoje alimentei os doze pássarinhos
estampados no relógio da parede;
disse coisas engraçadas e fiz carinhos
agregando-os á este mundo em rede.

Toda imagem carrega a vida e a doçura
onde águas de lembranças causam sede.
Mal -entendidas, a morte e a amargura
são conhecidas por quem lá já esteve.

Por isso alimento os doze passarinhos,
para não perdê-los em nenhuma hora.
Para que nunca abandonem seus ninhos
no peito de quem rí e de quem chora.

Se antes eu os prendia, estão soltos agora
em gravuras que envelhecem como vinhos.
Têm um canto que encanta de hora em hora,
onde ventos alísios... nunca movem moinhos.

Sérgio Brandão.04.03.11.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

FLERTE


“ Truth is a great flirt.” -Frans Liszt. ( A verdade ‘e um grande flerte)

FLERTE

A paisagem de árvores revestida,
floridas, a dualidade dos gêneros:
o marron dos troncos, o pai da vida…
flores, a mãe dos brotos efêmeros.

O vento e sua Quixotesca aventura,
passeia entre curvas de bel prazer.
A brisa com a sua suavidade pura,
acompanha seu parceiro no correr.

Assim como casam o fogo e a brasa,
a terra em eterno idílio com a água,
o céu, poligâmico de estrelas, casa
tambem com a chuva que deságua.

Tudo se flerta em projeção infinita,
como o bom leitor faz com o livro.
Em cada elemento, o universo vivo
Induz ao que mutuamente se fita.

Sérgio Brandao, 04.05.10

Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.
Clarice Lispector

CONCRETISMO ABSTRATO

A vida é um fenômeno abstrato ou
concreto, segundo a manifestação
momentânea e que á ela se somou
exigindo de nós o amor ou a razão.

O que é concreto como o trabalho
acontece quando o abstrato amor
usa os corpos através deste atalho
entre perceber a escuridão e a cor.

Amamos a beleza , corpo condutor,
da vontade e da ação somos donos;
quando não, é o abstrato pensador
tão concreto quanto nossos sonos.

Pensar é tão concreto quanto pão
abstrato como a alma que ocupa
o universo na palma de uma mão
que por amor rege a concreta luta.

Sérgio Brandao, 30.04.2010.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

INTERLUDIO COM FLORBELA


INTERLÚDIO COM FLORBELA

De tanto andar pelo mundo afora
Já descobrí que não existe cansaço;
quando se quer ocupar um espaço
a grande vontade avança no agora.

Mesmo dono de um coração partido
pelas tristezas não fui dominado,
a não ser quando eu sou o culpado.
Fico triste pelo dever não cumprido.

Mas ando muito,deixo fluir esperança,
tenho admirado a Florbela Espanca
e adoro ir onde meu destino me lança.

A quem interessa saber quem eu sou
sou apenas mais um que sonhou;
Um que sempre sorriu e sempre chorou.

Sérgio Brandão, 09 . 03. 10.

quinta-feira, 22 de abril de 2010


O MAR NÃO ME CANSA.

Lancei uma palavra honesta no ar
e depois joguei-a ás aguas do mar.
A palavra nao foi ouvida por vocês
mas o mar captou meu português.

A chuva com gotas de honestidade
despeja no ar a minha boa intenção;
não sendo o dono da pura verdade,
entendo como reage o seu coração.

Porém o esforço para te convencer
cansa o que sobra em mim virtuoso.
O mar estará sempre a me entender ;
Os outros, fazem de mim preguiçoso.

Sérgio Brandao, 01 de abril 2010.

SOLIDARIA COMMPANHIA NOTURNA


SOLIDÁRIA COMPANHIA NOTURNA.

O dia anuncia a sua partida dourada.
Pelas réstias frias de um sol poente
a minh’alma desliza em sua retirada
na esperança de acalmar o que sente.

Com um cobertor azul a estrela vem
esquentar as nossas almas com frio.
O calor de um anjo confirma amém
para o quê numa oração á ele pediu .

Pedí que lêsse um poema para mim;
destes em que o mais simples poeta
destila seu espírito etéreo e sem fim
tornando o bardo um grande profeta.

Vem, noite! Mas, não venha solitária.
Traga em sua bela celestial escuridão
as luzes que só vemos com o coração
que ama a tudo com a alma solidária.

Sérgio Brandão, 28 de março 2010
REDE SOBERANA

A teia da vida se mostra lentamente,
se revela aos homens pouco a pouco.
Uma aranha invisível a tece paciente
- fio que nos liberta de um calabouço.

Fios de luz viajando pelos filamentos,
mesmo em sua velocidade peculiar,
espera que os nossos pensamentos
Alcancem os seus rastros neste tear.

Nossa alma com aracnídea herança,
Procura se agarrar na imensidão,
Como aranha-mestra, a esperança
é sua incessante eterna motivação.

Se a aranha só vive do que tece,
segundo o dito popular proclama
tudo o que nessa vida acontece
é o construir dessa rede soberana.

Toda a vida é esta teia interligada,
ações interconectadas no espaço.
E vital observar o proprio passo
e a reciproca sera bem justificada.

(Sergio Brandao 21.04.10)

REDE SOBERANA


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

NOVO DIA, NOVA VIDA!

NOVO DIA, NOVA VIDA!

Para ver o universo ao nosso redor
de modo novo e inusitado,
esqueça o que quer que seja menor
do que o visto ai do nosso lado.

Seja problema ou solução esperada,
nada será nem um pouco melhor
do que a sensação da visão alargada
por razão de existir bem maior.

Quando observamos a presença alada
dos pensamentos partilhados,
a alma voa alto, seguindo a revoada
por caminhos no céu trilhados.

É preciso abandonar fardos pesados,
tudo o que nos prende e amarra.
Podemos reciclar os fatos passados
ao novo dia que a tudo desamarra.

Sérgio Brandao. 18.02.10.

sábado, 12 de setembro de 2009

OS NEURONIOS E OS GALHOS


" Ever man's memory is his private literature." - Aldous Huxley

(A memoria de cada homem e' a sua literatura particular.


OS NEURONIOS E OS GALHOS



Como duas arvores bem frondosas

cujos galhos se encontram no ar,

nossas lembrancas surgem morosas

nun denso jardin de espinhos e rosas

(da vida e o que nos resta para amar).


As horas caem lentamente como o sol

que incide os seus raios passageiros.

nao ha tempo para se ver um arrebol!

-Passam rapidos como fogo no paiol.

O mundo exige que sejamos ligeiros.


ha um tempo para tudo acontecer...

E quando acontece nao se pode reter

a felicidade que foge como borboleta;

a mente decide o que vamos escolher

lembrar, depois de vazia a ampulheta,

as cenas futuras que queremos rever.


sábado, 5 de setembro de 2009

UMA LEVEZA AINDA OBSCURA


Nao sou nada
Nunca serei nada
Nao posso querer ser nada
A parte isso, tenho todos os sonhos do mundo! -Fernando Pessoa
UMA LEVEZA AINDA OBSCURA
Os flashes passam em ritmo frenetico
entre dias corridos e nossos anseios,
os perdidos neste misterio hermetico
sao os que se perguntam sem receios.
Como vacas que comem felizes racoes
sem esperar o dia que serao trucidadas
deviamos conformar nossos coracoes
apreciando as maravilhas simplificadas.
Escutar o que? Ouvir a quem? Porque?
estamos num mar de questionamentos.
Ser o qual? Para quem? Falar de que?
Bracos de Rio sao como pensamentos.
A vida pulsa nos corpos e almas agora,
mais tarde, em nenhum corpo existira:
Numa cela vai esperando por uma hora
em que como um passaro se libertara.
Sergio Brandao, 04 09 2009.

domingo, 23 de agosto de 2009


O SEGUNDO FEITICO DO HIPOTALAMO

Os aromas mágicos de patchouli eram
tapetes voadores ao mundo de Sidarta.
Aquele universo de imagens couberam
no mesmo espaço de uma mesa farta.

A pimenta de cheiro com o seu colorido
alegra ardendo nossas pupilas cansadas.
Ah, minha Bahia, o meu peito dolorido
quer sentir esse seu cheiro nas calcadas.

Uma fumaça leve ou dos milhos assando
carregam entre os seus muitos vapores,
cenas que como num filme vão passando
os momentos felizes e os outros de dores.

Tudo passara no fim desse nosso tempo,
exceto essas nossas impressões do olfato.
Os cheiros passam e carregados pelo vento
são como eternos narradores de um fato.

S.Brandao. 20 08 09.

“...smell and taste are the only senses that connect directly to the hippocampus, the center of the brain’s long term memory.”
(“...Olfato e paladar sao os unicos sentidos que se conectam diretamente com o hipotalamo, o centro da memória permanente do cérebro.) Rachel Herz

O PRIMEIRO FEITICO DO HIPOTALAMO.

O sabor do algodão e’ o da sublime doçura:
tão doce quanto a sua passagem pela rua.
O espelho mágico e’ um ensaio da loucura,
na roda gigante, eu pude imaginar-te nua.

Os nossos churrascos em domingos de sol
se ancoraram nas memórias da cerveja.
Tem no gosto de um peixe tirado do anzol
uma linha estirada em um mar de beleza.

As frutas contem uma textura de infinito:
-o das terras do sem fim depois da chuva.
Lembram uma paixão , tudo o que e bonito
como um broto de cacau, uma flor e a uva.

Tudo poderá se sucumbir no fim dos dias
exceto os nossos segundos degustados.
O paladar reconhece o sabor das poesias,
pois os gostos trazem tesouros enterrados. S. Brandao, 20 08 09

DECALOGO DAS NUVENS CARREGADAS
As nuvens prenhas ameaçavam soltar
dos seus ventres as suas filhas aquosas,
ansiosas por descer para nos encontrar
revestidos da alegria molhada das rosas.

Como tudo no universo obedece uma lei
nem sempre um coração pode ser o rei.
E mesmo fazendo o uso da livre vontade,
estamos mesmo a mercê dessa verdade.

Plúmbeas nuvens refletem ao desaguar,
aquilo que todo sábio chinês bem sabia:
não devíamos o que e natural expulsar,
pois a natureza como um galope voltaria.

Prazeroso e’ o interagir com essa criação!
Saber que tudo disposto ao nosso redor,
desde teias, das flores a’ um escorpião ,
obedece a mesma inteligência maior.

O amigo companheiro de todas as horas,
-esse velho espírito (do vinho análogo),
declara : “oh, irma chuva não te demoras,
persista em nos revelar o seu decalogo”. S.Brandao

REVELACAO DO DECALOGO DAS NUVENS.

No primeiro mandamento tudo se repete
como acontece na tabua sacra de Moises;
contemplar a chuva com amor nos remete
a mesma porcentagem aquosa que tu es.

Análoga sequencia , entao subentendida
se não pelo córtex ou pela seiva da vida
(a inspiradora da sabedoria dos profetas)
essa mesma, tão buscadas pelos poetas.

Provavelmente, não fará nenhum sentido
entender poemas bem como as profecias.
Se so em contas te encontrares envolvido
dessa expansão das almas so te distancias.

Existe setenta por cento de água na terra,
mesma quantidade que existe nos seres.
Na vazante , maré baixa que a lua encerra,
semelhante decálogo se revela as vezes.

Sergio Brandao. Brighton (Ma) 17/08/09

quinta-feira, 6 de agosto de 2009


O NASCIMENTO DA VENUS DE ATENA.
(Para Suzana, minha Irma, meu mito)
“Pour être irremplaçable, il faut être différente”(CoCo Chanel)
“Para ser insubstituível e preciso ser diferente” (Coco Chanel)

Um dia, esse mesmo capricho das palmas,
da cor da canela e dos jambos morenos,
da luminosidade morna de águas calmas,
dos pavões e plantio dos trigos sarracenos...

Um dia, para a felicidade de muitos olhos
da liberdade como imagem de inspiração,
com a alegria presente nos seres ditosos
se fez única mulher em sua composição.

Dos corpos celestes escolheu os cometas
e fez deles um modelo de sua passagem.
Dos marinhos as espumas com gametas
misturou Venus com Atena e coragem .

Es uma alma gemea do pássaro exótico,
fruto do amor dos dois seres escolhidos .
Adornarias as salas de um palácio gótico:
sua elegância extrapolou os seus vestidos.
Sergio Brandao, Brighton (Ma)05 de agosto de 2009.

sábado, 1 de agosto de 2009

TUDO E UMA PORCAO QUE NAO EXISTE!


TUDO E UMA PORCAO QUE NAO EXISTE.

Tudo começa dentro das nossas redes
de neurônios e neurotransmissores
continuando nos átomos, nas paredes,
através das ondas e invisiveis torres.

Tudo se explica através do intangível,
do que extrapola nossa fome e sede
e perpetua-se no alem desse “possivel”
pensamento vivo que alguém já teve.

Tudo...tudo um dia será bem captado
pelos sensores que nos já esquecemos,
os temos, mas os deixamos no passado
e hoje em dia não mais os percebemos.

Tudo...nao sei ainda se o tudo existe
Ou o existir não e um eterno processo.
Tudo... se e que em nos ainda persiste
essa mera tendencia ao retrocesso.

Sergio Brandao...Brighton (Ma)
01 de agosto de 2009.

quarta-feira, 29 de julho de 2009


OCEANICA UNIDADE COLETIVA.
(Para meu irmão Toinho)
“ A family is a place where minds come in contact with one another” BUDHA.
“Uma familia e um lugar onde mentes interagem” BUDHA.

Se a familia fosse a replica do mar
no nosso mar você seria Tubarao,
se Poseidon tentasse te governar
novo Deus haveria no Panteao.

Se a família fosse como o zodíaco
nesse caso você seria nosso Leao,
habitante de um pais paradisíaco
segundo sua estrela em ascencao.

Mas a família tem algo de genuíno
uma unidade que se faz em coletiva.
Deus único brincando de menino.

Forma a saliva o primogenito reino
( nossa primeira delicia foi materna),
dos homens Antonio foi o primeiro.

Sergio Brandao, Brighton (Ma)
29 de julho 2009.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

TENDO NUVENS COMO ESPELHO


TENDO NUVENS COMO ESPELHO

As correntes sopraram minha nuvem,
aquela mesma que eu havia escolhido.
Bem antes que dela os ventos cuidem ,
em tempo encontrarei o meu sentido.

Nem tudo ficou exatamente preciso,
nem sábio seria esperar que o ficasse.
Elas seguem esse caminho impreciso
imitando aquele que nelas se mirasse.

Sendo elas irregulares por natureza,
da vida são suas melhores analogias.
Essas imprevisíveis mestras da beleza
simplificam todas as outras filosofias.

Nos somos delas seus fieis espelhos,
céu e corpo são suas fieis molduras.
Escutemos seus mutantes conselhos
e a cada dia sejamos novas criaturas.

Sergio Brandao, Brighton (Ma)
27 de julho de 2009.

domingo, 26 de julho de 2009


MICROMEGAS, A LICAO DE VOLTAIRE.

Para entrar no mundo dos pequenos
precisamos diminuir as proporções,
entender como incorporar os menos
e se enxergar no mundo dos anões.

Para conhecer o mundo dos gigantes
a premissa e ter a alma agigantada,
voar como um condor sobre os Andes
percorrendo as estrelas como estrada.

Na elasticidade reside o sumo da vida:
Anões ate onde a dimensão permitir
gigantes como uma galáxia expandida
Humanos. O caminho do meio seguir.

Sergio Brandao, Brighton (Ma)
25 de Julho de 2009.

sexta-feira, 24 de julho de 2009


MARIA, OXUM , ARTEMIS OU GAIA.

Essa dialética imposta pela vida
Supoe uma resposta mutante,
dado que o segredo nela contida
nos e revelado em cada instante.

Em cada um, essa mesma verdade
saber que tudo sobre nosso existir
recorre a uma multi- diversidade
de uma verdade sempre no porvir.

Há mais prazer em apenas sentir
do que em desvendar o saber.
A verdade não pretende se omitir
e sim mostrar como se deve ver.

E como um poema que nos lemos,
fazemos nossa interpretação surgir
enquanto a essência absorvemos
a verdade e Deusa em eterno parir.

Sergio Brandao, Brighton (Ma)
24 de julho 2009.


PRESENCAS DESPERCEBIDAS.

As presenças serão incontáveis
se adicionarmos os não vistos;
com os seus gestos são amáveis
e por poucos são benquistos.

Estes não são os enxergáveis
embora sejam os abundantes;
no silencio sao rápidos e ágeis
da benfeitoria são os amantes.

O dom para enxergar e escasso
não são os vistos por todos nos.
São os agentes do amoroso laço.

São os aquecidos por outros sois
e os portadores da luz do espaço.
Para navegantes são como faróis.

Sergio Brandao, Brighton (ma) 20 de julho de 2009.

OS CIENTISTAS DA NOVA ERA.

Liberdade e’ uma incógnita em expansão.
O livre arbítrio e os agregados segredos
conjugam esses desafios da nova visão
sobre os atos sensatos e nossos desejos.

As ciências tem mostrado bom trabalho,
so pecam quando pensam que as exatas
definiriam a lagrima ou mesmo o orvalho
anulando o que e possível aos telepatas.

Se tudo parece interligado eternamente,
(percebam essas sinapses em ocorrencias)
assim como as conexões em nossa mente
conecte o divino com as meras ciências.

E quanto a nos, estes leigos empiricistas
vamos pulsando com alma e neuronios
vivemos o dia como amadores cientistas
numa pesquisa incessante pelos sonhos.

Sergio Brandao, Brighton (Ma)
23/07/09

quinta-feira, 23 de julho de 2009


A DAMA FECUNDADA POR MORFEU.
(para meu querido Walt Whitman)

A unidade fica tao presente agora
nessa mesma hora em que estamos
lendo o passar dessa mesma hora
em que nossos corpos animamos.

Do corpo surge uma alma inquilina
Uma alma se formou desse corpo.
Não, não há dualidade nessa rima,
nem para o que nao esta morto.

Se faz a caricia e o nosso corpo pulsa
numa procissão de olhos satisfeitos.
Onde não há atração so há a repulsa
Onde há qualidades existem defeitos.

Ser completo e a nossa unica urgência.
Não sei se a alma e do corpo geradora
Ou se foi alimentada pela nossa vivencia .
so sei que a vida e uma dama sonhadora.

Sergio Brandao, Brighton (Ma)
21/07/09.

AS ESCADAS DE APOLO.

Toda a arte acumulada nesses anos,
a fome diária do intelecto saciada
pela ingestão de tenores , sopranos
e outros artistas da crônica cantada,
se juntam os sagrados e os profanos
(efeito da alma pluriversal emanada).

Ser brasileiro, falar português , cantar;
Ser sul , norte americano ou europeu,
não importa onde se aprende a amar,
O patrimonio que ninguém esqueceu.
E a solidez de um muro mágico no ar
( o prazer da canção feita e todo seu).

Cantores, erguei-vos a altura sagrada!
-La esta o principio dessa engenharia.
A fagulha do fogo de Deus foi lançada,
desceu com a pira os anjos da escadaria.
Subais os degraus na infinita caminhada
(artistas aspirantes sobem em romaria).

Sergio Brandao, Brighton (Ma)
22/07/09

domingo, 12 de julho de 2009

DANCA DA CHUVA.


DANÇA DA CHUVA.

Bem vinda aquosa manifestação!
-Barulhinho ludico inundando a alma.
Bem vinda , ‘O minha doce solidão !
-Meu peito banharei com sua calma.

A mesma técnica dos trovoes agora
refaz seus ouvidos com imaginação.
Não há melhor companhia nessa hora
do que ouvir o seu escoar no coração.

As coisas mais essenciais são invisíveis
Saint Exupery e o príncipe já diziam.
E preciso ignorar as coisas impossíveis
dai em diante todos os sonhos se iniciam.

Homens mais sonhos resultado: vida.
A mesma ferramenta usada pelo criador.
Dentro dos sonhos a pratica esta contida
relâmpago e trovão me lembram do amor.

Sergio Brandao, Brighton (ma) 11 de julho 2009

quinta-feira, 11 de junho de 2009

SONHO PRODUZIDO PELA LIPOTIMIA


“...Quero , neste momento, fumando no apeadeiro de hoje,estar ainda um bocado agarrado a velha vida. Vida inutil, que era melhor deixar, que e uma cela? Que importa? Todo universo e uma cela, e o estar preso nao tem que ver com o tamanho da cela...” Alvaro de campos.

SONHO PRODUZIDO PELA LIPOTIMIA

Ontem, muito breve foi sua visita a mim,
durou todos os segundos da eternidade.
A nossa prosa curta foi a palavra sem fim
Que cabe perfeita na esfera da verdade.

Lembro-me bem dos seus óculos de ouro,
atraentes como o astro-rei aos gira-sois.
As suas falas amaciadas foram um sorvo
Uma lótus a flutuar por cima dos lençóis.

O dinamismo letargico desta lipotimia
refez a minha visão que era tão parva.
Sua alma era a própria noite que abria
cortinas azuladas para o dia que raiava.

Não sei se foi um sonho ou a aparição
de uma mesma materna universalidade,
as lentes douradas de um anjo escrivão
em sua face, mãe de toda a bondade! Sergio Brandao, Brighton 11 de junho 2009

sexta-feira, 5 de junho de 2009

ESTRANHOS VISITANTES DE NOS MESMOS


ESTRANHOS VISITANTES DE NOS MESMOS.

Quando em noites visitamos nossa alma,
muitas vezes tão distante de nos mesmos,
não seriam estes momentos de rara calma
horas que desvendamos nossos segredos?

Se são eles partes de nos, como não saber-los?
Seriamos então nossos estranhos habitantes
sábios engenheiros , pais de todos os instantes
os meros arquitetos destes castelos alheios?

Coloca-se agora essas cartas na mesma mesa
la onde diariamente almoçamos e jantamos
como se nos “ jogadores” , os ases da destreza,
so fossemos vitimas dos truques que armamos.

Somos os estranhos visitantes de nos mesmos.
Se boas são as almas, não havera lugares ermos.

Sergio Brandao, Brighton (Ma) 04 de junho de 2009.








segunda-feira, 1 de junho de 2009


UMA IMAGEM NA RELVA.

Uma imagem de Santo Antonio
feita de barro e pintura clara,
agora se junta a relva...
Esquecido na orvalhada ramagem.
Imagem de santo, rota e relvada,
dormindo ao som de rãs outonais,
esquecida dos seus tantos fieis.
Mistura-se ante ao pasmo violeta,
dos miosótis e dos colibris.
Com caricias de mãos aquosas
a chuva lavou o manto sagrado
do santo menino em seus braços.
Tao visitado nas capelas fora
agora congrega com as borboletas.
Passantes olham e não percebem
Quantos pedidos o beato carrega,
vigiado apenas por belos insetos,
batendo asas com beleza de Venus
vão ligeiras pegar o néctar,
o mel das flores transformado
pelos prazeres de mil zangoes
tomados pela abelha rainha.
SERGIO BRANDAO

quinta-feira, 28 de maio de 2009


O HOMEM E A ESTRELA
Nossas vidas sao livros fechados
Com todas as paginas guardadas.
A cada vez que somos olhados
Algumas cenas são mostradas.

Quem ler alguns episódios soltos
descobrira nuanças diferenciadas.
Dos esverdeados mares revoltos
ao matiz de pássaros em revoadas.

A leitura esta nos olhos de quem le
assim como a beleza de quem a olha
Por isso estamos ávidos por saber
da lagrima que o seu olho, molha.

Temos que aprender a ler perfumes.
Ao sentir o cheiro dessas estórias,
ouviremos as sinfonias desses lumes.

Essa mesma luz azul polar espacial
emanando em cores na minha janela
habitava no homem de Neandertal.

Sergio Brandao, Brighton (Ma) 27 de maio de 2009.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A ALFORRIA DOS NOVOS ESCRAVOS (para a velha Itabuna e ao meu pai nascido em 11 de maio)

Os negros cantavam na madrugada
Enfeitavam as carrocas e os cavalos,
Isabel era uma princesa consagrada:
A soberana dos escravos libertados.
A caravana seguia pela noite afora...
Cantorias, algazarras, a liberdade.
Numa alegria conservada de outrora
relíquia de uma velha comunidade.
Meu pai os esperava com licores,
a princesa poderia entrar na casa.
A multidão cantava seus louvores
pela grande irmandade alforriada.
As mulheres so olhavam pela janela
meus irmãos se juntavam na algazarra
A homenagem que era pura e singela
numa boa época de paz se celebrava.
Esses saudosismos são justificados
Pois o canto foi banido dessas bocas
(Hoje a madrugada e dos assustados)
Escravos dos donos de outras bocas.

Sergio Brandao, 13 de Maio de 2009. Brighton Ma

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A NOITE DE EPICURO - (Conto) por Sergio Brandao

A Noite de Epicuro

Conto: Sérgio Brandão

São Paulo, Agosto de 185l. O inverno consumia a cidade impiedosamente. Sofrimento e desolação assolavam os miseráveis; tremulavam como marionetes das intempéries a circularem em torno de fogueiras improvisadas, todos os que na vida não tiveram a mesma sorte dos seus vizinhos abastados. As primeiras levas de imigrantes começavam a modificar o perfil da cidade. Destes, muitos logo fariam fortuna nas novas terras férteis ao cultivo do café; outros encontrariam vicissitudes ainda piores do que as que os impeliram a buscar o desconhecido em plagas tão distantes. As pessoas se esbarravam indiferentes e entediadas nas precárias calçadas da cidade, por onde transitavam pais de família e seus segredos, padres com voluptuosos olhos libertinos, mulheres lascivas, ébrios, beatas a blasfemar com seus terços na mão e estudantes vadios em busca de algo que os provasse vivos antes que o tédio confinasse suas almas mortas em seus corpos vivos.
Richard fazia parte desta última categoria; era o primogênito de uma família de ingleses donos de uma chácara que também servia como República de Estudantes e centro comercial local. Havia chegado no Brasil há cinco anos, devido à insistência de sua mãe, brasileira, que já não agüentava mais de saudades da terra natal. Morava na chácara com os pais e ajudava-os nas raras horas de folga do curso que fazia na Faculdade de Direito de São Paulo. Lá conheceu Manoel Antônio, o Maneco, que veio morar na Chácara dos Ingleses por sugestão de Richard. Uma grande amizade desenvolveu-se entre os dois, tendo como combustíveis dois fatores primordiais: o apetite insaciável de Maneco por línguas estrangeiras (falava latim, inglês e francês com desenvoltura) e o gosto de ambos pelos poetas românticos. Maneco descobriu que além de praticar Inglês com Richard aprendia cada vez mais sobre Shakespeare, Lord Byron, Goethe, Alfred Musset dentre outros adorados por aqueles jovens de 20 anos acometidos pelo que chamavam de “spleen”, uma profunda melancolia, acentuada por um tédio quase obsessivo a temperar suas almas; receita esta que servia como lenha para a fogueira de seus eflúvios poéticos de rara beleza lírica, permeados pela adoração do sinistro e da morte, a musa preferida de seus poemas.
Maneco já havia passado para o papel muitos de seus dons poéticos, ao passo em que Richard era poeta instantâneo, tinha uma beleza nata para expressar tudo que se passava no fundo de sua alma ditosa, principalmente quando falava longa e repetidamente sobre Charllote, uma francesa de 22 anos por quem se apaixonou perdidamente, após tê-la conhecido em sua casa onde recebia seus escolhidos para noites regadas a vinho, haxixe e saraus acompanhados pelo seu piano de caldas que parecia uma fábrica de deleites quando ela interpretava Chopin, seu músico predileto. Maneco sentia-se amigo íntimo de Charllote; sabia dos seus amores, sofrimentos e delícias de tanto ouvir Richard contar-lhe cada detalhe que descobria sobre sua vida , embora não a conhecesse ainda pessoalmente.
Uma noite conheceram-se nas imediações da Faculdade, onde ela às vezes esperava Richard e dirigiam-se á casa dela onde lhe prestava os mais caros favores.
- Hey, Charllote! Love of ma vie. Comment vas you darling?
- Hereux comme the flowers beneath the rain!
Faziam uma mistura de inglês com francês que intrigava Maneco visivelmente.
- Maneco, esta é Charllote, ma raison d’etre.
- Enchanté! - Respondeu Maneco sem conseguir disfarçar o encantamento que Charllote lhe causara. Loira de uma alvura angelical, com suaves olhos azuis que iluminavam a noite esfumaçada de brumas; era como se encarnasse a musa do ideal romântico.
- Que’est ce que nous allons faire ce soir? - Perguntou com um ar avoado que lhe acrescentava um charme dos diabos.
- Não sei ainda, o Maneco acabara de me convidar para finalmente conhecer de perto a tão falada “Sociedade Epicuréia”. Respondeu Richard já um pouco enciumado pelos olhares de Manoel para Charllote.
- Societé Epicureica? Que’est ce que ça veux dire?
- Trata-se de um grupo de poetas que acreditam piamente que acabarão com o tédio do mundo através de suas reuniões cada vez mais santificadas pela poesia e endemoniadas pela bebedeira e pelas orgias dos seus membros, se intitulam seguidores de Epicuro, filósofo grego que pregava a supremacia do prazer... - Explicou Richard lentamente para que Charllote entendesse.
- Trés Interressanté. Cést le meilleur chose pour faire. Quando irremos?
- Ce soir, sexta-feira, lua cheia das noites de agosto, consigo ver Pan, Baco à enfeitiçar os corações vagabundos. - Os olhos verdes de Richard brilhavam ao exaltar-se.
- Às vezes duvido das suas origens, Richard, nunca vi tamanho entusiasmo num Europeu antes. - Manoel respondeu com surpresa, pois se acostumara com o amigo quase sempre taciturno e melancólico, embora não fosse esta a primeira oscilação radical de humor que testemunhara no inglês.
Saíram com destino à taverna do Sturn, um dos lugares mais freqüentados pelos estudantes da Sociedade Epicuréia nos finais de semana. A taverna era um convento abandonado com arquitetura gótica, envolta nas brumas invernais do alto de um penhasco. Tochas e incensos tentavam dissimular os vapores do ópio e haxixe que recendiam pelas inúmeras janelas ornadas com vitrais italianos. As paredes e o teto eram tomados por vários afrescos, o que constituía um deleite rapisódico aos visitantes inebriados, sem falar da vista que se perdia pela névoa gélida à encobrir outros penhascos vizinhos.
- Dá-se com a distância o mesmo que com o futuro, um horizonte imenso, misterioso, repousa diante de nossa alma. - Richard falava com os olhos perdidos na paisagem.
- E os sentimentos nele mergulham, como os nossos olhares. - Refletiu Charllote em um de seus raros momentos de contemplação.
- És um louco Richard! Não é a lua que lá vai macilenta: é o relâmpago que passa e ri de escárnio às agonias do povo que morre... Aos soluços que seguem as mortalhas do cólera! - Manuel retrucou ao ouvir o amigo devanear com a visão pálida da lua a pratear os montes relvosos em suas lépidas aparições por entre as nuvens.
- Cólerra? Qu’importe? Não há por horra vida bastante nas veias dos homens? Não borrbulha a febrre ainda às ondas do vinho? Vin! Vin! Mon verre está vazio. - Gritou Charllote.
- Os lábios da garrafa são como os da mulher. - Disse Manoel.
- Porquoi?
- Só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou do amor os borrifa de lava.
- Mon dieu... Alors, ma bouche merrece muitos beijos. Insinuou-se a francesa com olhar sedutor e seios mais ainda querendo saltar do espartilho, ignorando assim todas as juras de amor feitas e repetidas a todo instante por Richard desde o dia em que segundo ele teve um gozo que revirou as terras do céu, moveu moléculas, interligou átomos com um poder somente dado pelo amor, o seu tóxico mais venenoso. Manoel passou o charuto com haxixe que estava fumando para Richard, ajeitou seus cabelos negros, sem graça com a expressão furiosa do amigo que mais parecia um fantasma maquiado pela ira do ciúme. Num rompante providencial, tentou contornar a situação dizendo a todos os presentes:
- Vamos ao cemitério, hoje faremos o enterro do amor, afinal de contas a vida e o amor se encontram numa garrafa de absinto, na fumaça de meus charutos, nos seios voluptuosos de uma bela cortesã... Dentre outras coisas essenciais... Vamos separá-los antes que um mate o outro, se é que um pode existir sem o outro!
A idéia se alastrou epidêmica, Richard distraiu-se com a sugestão e acompanhou o bando de desregrados morro abaixo à cantar e recitar poemas de Baudelaire, Musset, Byron... Parecia uma procissão de anjos das palavras e cânticos celestiais, envolvidos pelas artimanhas do demônio, dos vícios, celebrando seus suspiros e energias emprestados pela mocidade. Uma verdadeira apoteose da guerra e do amor, do bem e do mal que habitam no coração daqueles pobres seres sensíveis ao belo e vulneráveis às ardências carnais.
Á caminho do cemitério passaram pela loja maçônica, invadiram-na pelos fundos e roubaram as insígnias usadas nos rituais. Passaram ainda na Mortuária São João, saquearam uma urna funerária, dirigiram-se ao prostíbulo de Madame Sissí, conversaram com Eufrásia, uma das meninas da casa que tinha sérios problemas mentais e por isso andava afastada de seus afazeres e convenceram-na à participar da peça teatral que supostamente estariam ensaiando naquela noite. Saíram em romaria sinistra pelas ruas da cidade cantando a Canção do Estudante de Goethe, acordando a vizinhança para participarem do enterro do amor. Eufrásia deitada no caixão estava pálida de medo, mas a sua vontade de ganhar alguns trocados conforme fora combinado foi mais forte que o seu pavor.
Entraram em silêncio sepulcral no cemitério segundo o combinado para que pudessem ouvir a voz das almas. Por alguns minutos só se ouvia as tragadas nos cigarros de haxixe e nos charutos, além dos goles nas garrafas de conhaque e absinto.
- Ouçam! Alguém sussurrou.
- O quê?
-Não estão ouvindo? Parece um coro de vozes femininas...
-Psiu! Cala boca!
As vozes começaram a ficar mais nítidas, era um canto em latim a ecoar na noite fria do cemitério.Uma onda de calmaria tomou conta dos invasores, parecia um ritual, mas onde?
- “kirié eleizon, criste eleizon. Kirié exaudi nós, Criste exaudi nós... Santa Trinitas unos Deus, Misererem nobis”.
- Onde elas estão?
- Sumiram. Meu Deus, eram fantasmas!
Richard não tinha atenções para mais nada a não ser para a imagem diáfana de Charlotte. Parecia-lhe que ela tremeluzia como lamparina em cada gesto felinal em que seu corpo dançava por entre os tecidos transparentes de seu vestido esvoaçando-se por entre os mausoléus prateados pela lua; seu olhar narcotizado fazia com que ela se movesse lentamente ao som das madressilvas e das folhas com aromas silvestres que pisava, exalando aromas alucinógenos no ar da noite fria. Manoel parecia estar acompanhando tudo telepaticamente quando foi despertado por uma voz de criança.
- Maneco, lembras de mim? - Perguntou o dócil garoto com voz de anjo.
- Como não, meu querido? Como você está lindo... Respondeu quase a desmaiar quando reconheceu seu irmão menor que havia falecido há alguns anos.
- Que você continue amando as criancinhas, como sempre me amou.
- Deleito diante dos germens de todas as virtudes, encanta-me sua petulância tão incorrupta e íntegra; queres que eu multiplique estes sentimentos por mil? Pois bem, não será sacrifício algum.
- Ora, ora. A que devemos a honra? - Uma voz surgiu por trás de Richard e Charlotte. Viraram-se e viram dois homens que diziam ter sido amigos de Manoel e que ele escrevera seus nomes e as datas em que morreriam na parede de seu quarto. Um deles falou em tom solene:
- 1850, Feliciano; 1851, João Batista; 1852, ... Perguntem se ele já sabe quem será o próximo.
- Je pense que j’ai fumé beaucoup.
- Não, amiga, o que fumastes apenas facilitou o nosso encontro. Adeus! Despediu-se.
A pasmaria foi quebrada pelos gritos de Fortunato. Parecia um insano desesperado ao descobrir que a sua Amada Judith, uma judia israelita, motivo pelo qual o fez desistir da carreira acadêmica que seguiria em Dusseldorf, havia falecido há três dias. Fortunato acabara de chegar e estava comemorando a sua chegada e tinha planos de fugir pelo país a fora, como tinha combinado com Judith antes de partir para a Alemanha.
- Não! Não! Não partirás sem ter meus últimos beijos! – gritava enquanto cavava com as mãos. Com pedaços de lajedo da lápide improvisou uma pá e cavou até trazer o caixão à superfície. A sociedade epicuréia, atônita, assistia aquela ópera macabra, sem piscar os olhos. Uns gritavam;
- Não chores que não morreu! Era um anjinho do céu, que um outro anjinho chamou. Era uma luz peregrina, uma estrela divina, que ao firmamento voou!
- Não! Não sem meus beijos guardados há meses de travessia no atlântico... Não! - Abriu a tampa da urna; um aroma de rosas frescas impregnou o ar. Era incrível, já devia estar mal-cheiroso. Todos os olhos se arregalaram ao ver Fortunato encher o rosto pálido de Judith com beijos fervorosos. Abraçava-a, chorava, gritava com a força de todas as cordas vocais.
- Fada branca de amor, que sina escura manchou no teu regaço as roupas santas, anjo branco de Deus, que sina escura!
- Não chores que não morreu, era um anjinho do céu... - Gritavam em coro.
Neste espetáculo macabro Richard perdeu-se de Charlotte e Manoel. Saiu a procurá-los nos arredores. A lua lançava tons de prata azulada sobre os mármores frios. Richard tremia de bater o queixo.
- Também sentes frio, companheiro? - Um vulto macilento esboçava-se no ar, tomando a forma de um homem jovem vestido de preto sentado no dorso de seu corcel preto. - Na outra vida fui muito rico, era paparicado por moços e moças também abastados. Amei muito, por isso estou aqui, alhures. - Completou o jovem a apresentação.
- O que queres comigo? Não vês que já estou demasiado atormentado com minhas dúvidas? Retrucou Richard.
- Queres mesmo encontrar o que procuras? Então siga este cheiro de almíscar que vem daquele túmulo ornado com copos-de-leite... Mas, lembre-se: o viajor nos cemitérios, nessas nuas caveiras não escuta vossas almas errantes... Do estandarte medonho nos impérios, a morte leviana prostituta, não distingue os amantes. - Desapareceu no ar logo em seguida.
Richard seguiu o rastro indicado pelo fantasma e logo ouviu os gemidos de prazer de Charlotte. Surpreendeu-lhes em pleno orgasmo sincrônico; ela, a sua amada e o seu melhor amigo. Saiu correndo por entre os túmulos, chorando mais que todos os órfãos juntos ali um dia choraram. Em cada catacumba que passava, o fantasma aparecia-lhe novamente inquisidor. Richard gritou enfurecido:
- Cavaleiro das armas escuras, aonde vais pelas trevas impuras, com a espada sangrenta na mão? Quem és? O remorso? Não escutas gritar as caveiras e morder-te os fantasmas nos pés? - Inquiria por entre lágrimas e soluços.
- Sou o sonho de tua esperança, tua febre que nunca descansa, o delírio que há de matar! - Respondeu sem delongas.
Richard delirava em prantos pelas catacumbas. Enquanto isso, Charlotte e Richard, recompostos, foram de encontro ao grupo.Depararam com Fortunato ainda agarrado ao corpo de Judith. A defunta se mostrava cada vez mais, por entre os véus transparentes e rasgados pelo fervor do grande amor da sua vida.
- Meu deus! O que é isto? - Não sabiam o que fazer. Pararam estupefatos diante daquele idílio lúgubre. Manoel teve um acesso de tosse. Tossiu tanto que golfou sangue.
- Ele está tuberculoso! - Alguém gritou.
- Dê-nos sua garrafa de conhaque, homem! Queremos beber da sua morte. - Pediu um dos companheiros.
- Fiat Voluntas tua! - Manoel entregou-lhe a garrafa.
- Amem! - Agradeceu o ensandecido.
Manoel embora com fortes dores no peito, abandonou a sua fleuma costumeira para tentar acalmar Fortunato.
- Fostes tão leve e pura como a brisa matinal; a terra lhe será leve. - Tentava convencê-lo a deixar o corpo de Judith em paz.
- Perdão! Perdão pela agonia de te amar, perdão pela agonia desta noite lutulenta! - Chorava Fortunato arrumando as vestes da mais amada. Perdão, meu Deus! Perdão se neguei, meu senhor, nos meus delírios e se um canto de enganosas melodias levou meu coração! - Finalmente repousou o corpo de Judith de volta ao caixão.
- Taedet Animam mean vitae meae...!
Todos ouviram uma voz vindo de cima.
- Tadet Animam Mean Vitae Meae! Como dizia Jó: “estou cansado de viver”. - A voz reverberava numa eloqüência digna de um mestre ascenso. Era Richard em cima dos frondosos galhos do velho cipreste escondendo-se e mostrando-se por entre a cortina de cipós que despencava da árvore e lambiam o chão do cemitério; agora começavam a receber os primeiros raios alaranjados do sol frio de agosto. - Das esperanças suicidei-me rindo, no vale dos cadáveres sentei-me... Oh Judith, indolente vestal, deixei no templo a pira se apagar, morre em paz, pois em mim, tudo morreu, este sol não reluz, banha-me na friez lustral onde as almas se apuram! - Delirava Richard elegantemente vestido, depois de retirar as indumentárias maçônicas e jogá-las ao chão teatralmente.
- O que ele está fazendo? Perguntavam-se.
- Parece um trecho de uma peça que vi em Paris.
- Ele está completamente fora de si.
- E quem aqui está dentro de si?
- Já que não acordas, Judith, sirva-me de guia como a estrela oriental até o vale da morte. O céu enegreceu no oriente; rubro o sol se apagou, galopa o corcel da tempestade nas nuvens que rasgou... – Falava Richard sem ouvir os comentários dos que fitavam seus gestos.
De repente, todos ouviram um trote vindo por trás do cipreste, um cavaleiro com vestes e armas negras galopava insano em direção à multidão, era assombroso, todos se apavoraram protegendo-se como podiam; o cavaleiro das trevas passou deixando um rastro de arrepios causados pelos seus gritos medonhos. Os que ousaram olhar tudo atentamente viram quando Richard passou montado na garupa do corcel negro esboçando um pálido sorriso funesto. Quando sumiram por entre as brumas, todos levantaram as vistas saíram de seus esconderijos e depararam com o corpo de Richard balançando-se pendurado pelo pescoço envolto nos cipós.
- Non, c’est ne pás possible! Ajudem, por amor de Dieu! - Charlotte gritava enquanto Maneco tentava arrumar-lhe as roupas e esconder-lhe os seios expostos aquele bando de marmanjos. A polícia foi acionada. Manoel tentava livrar o amigo dos cipós inutilmente terminando por abandoná-lo ao perceber que não tinha mais nada para ser feito, estava morto. A correria era geral, corriam e tropeçavam nas indumentárias maçônicas que iam largando ás pressas pelo chão.
- Prenderam o filho do Promotor Balduino!
- Ah, este tem costas largas!
- Parem, parem e Eufrásia? Correram até o caixão em que a demente se encontrava e encontraram-na morta, não se sabe se por asfixia ou pavor.
- A tampa estava fechada!
- Quem foi o louco?
Corriam para safar-se dos policiais. Os poucos que foram capturados logo foram liberados por serem favorecidos pelas leis da amizade e das influências entre as famílias. O arquivo guardou o inquérito policial que atestava homicídio culposo. Mas quem seria indiciado? Quem?
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Caminhando pelas encostas do vale em que se refugiaram, Maneco tentava acalmar Charlotte.
- Querida, precisa acalmar-se.
- É um pesadelo. Un cauchemar. Vou-me embora hoje mesmo para a França.
Maneco teve um acesso de tosse até escarrar sangue novamente. Olhou para a nojeira a sua frente e disse:
- Talvez seja melhor você se tratar lá mesmo; terás mais recursos.
- Estás me dando atestado de tuberculosa?
- Sabes que é contagioso. Alertou-a.

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Nove meses depois Charlotte recebeu uma carta de uma das poucas amigas que freqüentava sua casa nos inesquecíveis saraus da cortesã. Lucíola manchou o papel da carta de lágrimas ao escrevê-la; chorava a saudade da amiga e lamentava a morte de Maneco. Ele havia sofrido uma queda de cavalo a qual lhe causou um tumor na fossa ilíaca, agravado pela fragilidade imposta pela tuberculose já avançada.
Os olhos de azuis de Charlotte enchiam-se com a beleza divina do sofrimento que a tornava mais frágil e sensível que um cristal de pureza inefável; as lágrimas caíam-lhe generosamente pelas maçãs pálidas levemente enrubescidas pelo ar fresco da manhã que invadia os vales iluminados pelo sol primaveril, enchendo os arredores de paris com camélias, flores-de-lis, petúnias. Fechou os olhos ao contemplar as flores e ouviu a voz de Richard sussurrar-lhe: “Quando a morte á tão bela... é doce morrer! Quero de amor viver no teu coração, sofrer e amar essa dor que desmaia de paixão”.
Não sabia se tinha realmente ouvido a voz de Richard ou se as lembranças que tinha dele materializaram as suas palavras.
Olhou pela janela da casa em que fazia o tratamento para tuberculose e viu uma senhora acompanhada por seus filhos adolescentes atravessarem a rua para ir á padaria. Sentiu uma vontade imensa de fazer o mesmo que aquela senhora, algo tão simples que agora lhe era tão caro. Logo ela que cruzara oceanos em busca de aventuras se emocionava agora com o cotidiano mais prosaico que se possa imaginar para uma dama do mundo; uma dama por quem se merece morrer, mesmo em mais tenra idade.




terça-feira, 21 de abril de 2009

A CHUVA DA NOITE JUBILOSA


A CHUVA DA NOITE JUBILOSA (para Nicinha Brandao, a minha Rainha)

Do céu plumbeo da America do Norte,
nessa noite longa do dia vinte de abril,
uma chuva umedeceu como uma sorte
O meu terreno de lembranças do Brasil.

Uma mulher divina dançava nas alturas.
Com a sua tênue alegria das mais puras,
aspergia sobre as futuras inflorescências
lagrimas entornadas em outras essências.

As casas vizinhas com telhados aquosos
acenaram com lentos brilhos noturnos.
As musicas nobres de tons suntuosos,
soaram abafando os barulhos diurnos .

Dorme, querida, em suas pétalas deitada!
Crescerao seus brotos na terra molhada.
Desperta, amada, em suas asas exaltada!
Surgirão belos frutos depois da estiada.


SergIo Brandao, na noite do dia 20 de abril de 2009 quando a protagonista desta estória estaria nos dando a graça de estar conosco por 80 anos.Na eternidade seriam oitenta segundos? Talvez...
Brighton, 20 de abril de 2009.